139# O maior povo apátrida do mundo

Boa noite!

Já ouviram falar dos curdos?

Quando se diz “curdos”, fala-se de um povo (não de um Estado) com uma identidade histórica e cultural forte, mas sem um país reconhecido que corresponda ao território a que muitos chamam Curdistão.

As estimativas variam, mas, em linhas gerais, aponta-se para entre cerca de 30 e 45 milhões de pessoas, com a maioria a viver numa faixa montanhosa contínua que atravessa Turquia, Irão, Iraque e Síria, e com uma diáspora relevante, sobretudo na Europa.

O “Curdistão”, no entanto, é mais uma ideia geográfica e política do que um ponto no atlas. 

É o nome dado a um conjunto de regiões onde os curdos são historicamente numerosos e onde, por isso mesmo, as fronteiras do século XX nunca foram apenas linhas no papel, tendo passado a ser muros no quotidiano.

O facto de a maior parte dos curdos viver dentro das fronteiras dos quatro países que anteriormente referi é o coração do problema: as reivindicações curdas não se jogam num único local, mas em vários, cada um com prioridades, medos e alianças diferentes. 

Na Síria, por exemplo, são descritos como a maior minoria étnica, com estimativas entre 7 a 10% da população global.

Na Turquia, contam como entre 10 a 15% da população, o que não impede que tenham um tratamento particularmente duro e ostracizante pelo governo turco.

No Iraque é onde têm a maior autonomia. Existe uma entidade política curda com instituições próprias no norte do Iraque, frequentemente citada como o exemplo mais próximo de autogoverno curdo no Médio Oriente contemporâneo.

No Irão são cerca de 10 milhões de pessoas (!), mais de 10% da população, mas, tal como na Turquia, são lhes negados direitos e privilégios atribuídos aos restantes cidadãos.

Embora existam vários dialetos lá dentro, como no árabe, há uma língua ‘universal’ curda, com cerca de 25 milhões de falantes.

A sua origem vem desde há séculos (há quem diga milénios), quando este povo vivia como nómada. Apesar disso, os registos diferem, assim como as interpretações das traduções que para uns aludem, e para outros não, ao povo curdo.

Se se estiverem a perguntar porque é que um povo tão identitário não tem o seu próprio país, o momento decisivo para perceber é o pós-Primeira Guerra Mundial. 

Quando a guerra terminou, as potências vencedoras desenharam novas fronteiras sobre as ruínas do derrotado Império Otomano. Isto fez com que a mobilidade fácil e nómada dos curdos ficasse bastante dificultada.

A ideia de uma solução política para os curdos apareceu (Tratado de Sèvres) e desapareceu (Tratado de Lausanne) em poucos anos, tendo o resultado sido a fragmentação do povo por vários países, sem um Estado próprio reconhecido internacionalmente.

A partir daí, a história curda passa a ser menos “uma biografia” e mais “quatro histórias em simultâneo”, atravessadas pela mesma pergunta: como manter língua, cultura e representação política quando a soberania pertence a outros?

Depois de muitas tentativas de independência e de criação de um Estado Curdo, surge o PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão (Kurdistan Workers’ Party), que é uma organização fundada no fim da década de 1970, ligada ao nacionalismo curdo na Turquia, que lançou uma insurgência armada em 1984. 

Ao longo de décadas, o conflito entre o Estado turco e o PKK marcou a política e a segurança na Turquia (e também, por arrastamento, no norte do Iraque e na Síria).

É também por isso que o PKK está no centro de classificações internacionais: os EUA designaram-no como Foreign Terrorist Organization (FTO), sendo que também a UE o considera uma organização terrorista armada.

Considera ou considerava, porque, este ano, a Reuters noticiou que o PKK decidiu dissolver-se e pôr fim à sua insurgência de décadas.

Apesar da abreviadíssima história que vos contei, mas tendo em conta toda ela, “curdo” não é uma identidade monolítica. 

Há diferenças regionais, linguísticas e políticas. Essa diversidade é uma força cultural e, ao mesmo tempo, uma dificuldade política quando se tenta falar “a uma só voz”. 

Para além disso, chamar-lhes “apátridas” é eficaz como título (espero), mas simplifica. 

Isto porque a maioria dos curdos têm cidadania dos países onde vivem. 

O que falta, para uma parte significativa do movimento nacional curdo, é um Estado próprio reconhecido, ou pelo menos um modelo político estável que garanta autonomia e direitos de forma duradoura.

Espero que tenham aprendido algo e, como há muita coisa sobre a qual não falei (porque teria de escrever um livro), deixo-vos algumas fontes interessantes para explorarem: este breve vídeo, e estes artigos da Enciclopédia Britânica e da BBC.

Adicionalmente, e sobre um tópico diferente, deixo-vos em baixo o último vídeo que publiquei no instagram do Aprende Algo Antes de Dormir, sobre desinformação e algoritmos.

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Por hoje é tudo.

Até quarta e, antes que me esqueça, boas festas!! 🌲👻 

Francisco

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